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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Desenvolvimento da Linguagem

Linguagem é uma das coisas mais incríveis que somos capazes. Pode ser porque nós -- Homo sapiens -- somos as únicas criaturas do planeta que a possuímos. Somente os golfinhos mostram qualquer indicação de linguagem, apesar de ainda sermos incapazes de entende-los.

Nós parecemos sermos "construidos" para falar e entender linguagem. As áreas especializadas do cérebro, como as áreas de Broca e Wernicke, sugerem que a  genética nos provê com, pelo menos, a fundação neurológica para linguagem.
Linguística é, naturalmente, um assunto completamente diferente, mas se relaciona bastante com a psicologia, especialmente quando se trata de desenvolvimento da linguagem em bebês e crianças. A habilidade de crianças pequenas de aprender uma língua -- ou até duas e três línguas simultaneamente -- é uma das indicações de que há algo de especial em nossos cérebros nessa idade.

Tudo começa na primeira infância. Do nascimento até o sexto mês, bebês fazem muito barulho. Eles gritam, chiam, rugem e fazem barulhos de pum com a boca. E eles arrulham. Arrulhar é basicamente a produção do que depois se tornará as vogais (a, e, i, o, u).

De 6 até 10 meses, eles produzem sons mais complicados chamados de balbucios. Primeiro, eles praticam as vogais mais precisamente, começando com as vogais redondas (o, u) e depois aprimorando-se  até as vogais não redondas (e, i). As primeiras consoantes são p, b, t, d, k, g, m e n, que podem ser  combinadas com vogais para formar sílabas. Logo, eles adicionam nh, f, v, s e z. E um pouco depois aprendem ch, j, ti, di e l.

Então, eles começam a adicionar s e z. Demora um pouco para entender o lh, r e rr, mas eles chegam lá. Um dos últimos sons a serem aprendidos é o de gua como em água. Por isso você vê eles pronunciando palavras de maneiras estranhas. Aua para água. Elicopo para helicóptero. Mas não se enganem, os bebês percebem mais do que conseguem pronunciar -- algo apropriadamente chamado de fenômeno aua. Eles não conseguem falar algumas palavras, mas não vão deixar você as pronunciarem errado! Uma das minhas filhas, por exemplo, usa a sílaba "mã" (com um a nasal) para dizer mãe, mamadeira e até mamão -- mas entendia a diferença muito bem.

Mães (e pais) tem grande importância em formar a linguagem de uma criança. Ainda que sejamos "pré programados" de certa maneira para falar uma língua, precisamos aprender uma língua específica pelas pessoas ao nosso redor. Mães tipicamente ajustam sua fala para encaixar no nível da criança. Isso é chamado de mãesês. É encontrado em praticamente toda cultura no planeta, e tem certas características em comum: As "sentenças" são muito pequenas, tem muita repetição e redundância, há uma qualidade musical, e contêm muitas "palavras de bebê". É também muito relativa ao contexto dos arredores imediatos, com constantes referências a coisas pertas e atividades que estão sendo feitas no aqui-e-agora.

Mãesês frequentemente envolve uma formação sutil chamada de protoconversação. Mães envolvem até crianças da primeira infância, que fazem pouco mais que arrulhar e balbuciar, em protoconversações:


MãeCriança (um ano de idade)
Olha! (chamar atenção da criança)( a criança toca na foto)
O que são esses? (perguntar)(a criança balbucia, sorri)
Sim, são cachorrinhos! (nomear objetos)(a criança vocaliza, ri e olha para mãe)
(mãe ri) Sim, cachorrinhos! (repetição)(a criança vocaliza, sorri)
(ri) Sim! (feedback)(a criança ri)

Mães também perguntam coisas como "onde está?" e "o que está fazendo?". Qualquer resposta é recompensada com felicidade! É claro, conversas se tornam mais significativas quando crianças podem formar suas próprias palavras. Aos 10 meses, a maioria das crianças conseguem entender entre 5 e 10 palavras. O 1/4 mais rápido consegue até 40!

De 12 à 18 meses (por aí) é chamado de estágio de uma palavra (ou holofrastico). Cada palavra constitui uma sentença por si só. Aos 12 meses, a maioria das crianças conseguem produzir 3 ou 4 palavras, e entender entre 30 e 40. Novamente, tem algumas crianças que conseguem entender e até usar até 80! Aos 14 meses, o número de palavras compreendidas pula de 50 para 100, é até o 1/4 mais devagar sabe de 20 a 50. Quando se chega aos 18 meses, a maioria das crianças consegue produzir entre 25 e 50 palavras sozinhas, e entender centenas. Duas características desse estágio é hiperextensão e hipoextensão. Por exemplo, a palavra chapéu pode significar qualquer coisa para se colocar na cabeça, um "auau" se aplica para qualquer animal, e "papa" (para o embaraço de muitas mães) pode significar qualquer homem. Por outro lado, as vezes crianças usam hipoextensões, no sentido de que usam uma palavra generalizada querendo dizer uma coisa em específico. Por exemplo, "mama" pode significar MINHA mamadeira e apenas a minha, e "busa" pode significar MINHA blusa e a de mais ninguém.

Tem certas palavras comuns que aparecem no vocabulário da maioria das crianças. No português, elas incluem papai, mamãe, leite, meu, quer, boneco, nariz, olho, boca, oi, tchau, não, sim, cima, baixo, etc. Há também palavras únicas, as vezes inventadas pela própria criança, chamadas de idioletos. Gêmeos idênticos as vezes inventam dezenas de palavras entre si que ninguém mais entende.

Entre 18 e 24 meses (aproximadamente), vemos o começo de frases com duas palavras, e fala telegráfica. Aqui estão alguns exemplos comuns, mostrando a variedade de funções gramaticais inclusas por conjunções simples de duas palavras:
vi auau, oi leite
a bola, bola grande
sapato papai, sapato bebê
mais cookie, mais cantar
dois sapato, acabou leite
mãe senta, Eva lê (frases de sujeito-verbo)
dá bola, quero mais (pedidos)
não jogo, não banho (negociação)
mamãe meia (frases sujeito-objeto i.e. mamãe pegue minha meia)
coloca livro (frases verbo-objeto i.e. coloque o livro aqui
Depois de 24 meses, crianças começam a usar construções gramáticas de vários tipos. Aqui estão algumas na sua ordem normal de desenvolvimento:


eu andando (presente contínuo)
na cesta, no chão (preposições)
duas bolas (o plural)
você disse (verbo irregular no pretérito perfeito)
bola do João (possessão)
ali está! (verbo estar)
um livro, a bola (artigos)
João andou (verbo regular no pretérito perfeito)
ele anda (verbo na terceira pessoa do singular)
ela fez (verbo irregular na terceira pessoa do singular)
Está nisso (contrações)
Estou andando (verbos complexos)
Perceba que verbos irregulares são aprendidos antes dos regulares! Essas coisas não são restritas ao Português, ou qualquer língua em particular: são universais. Por exemplo todas as crianças começam com frases telegráficas:
Homem limpa carro (O homem está limpando seu carro)
Obachan atchi itta (Obachan ga atchi e itta, "minha tia foi nessa direção," em Japonês)
Artigos (em línguas que usam artigos) são aprendidos como uma ideia geral primeiro, e apenas refinados depois:
o = o, a (olha o vaca)
uh = un, une, le, la em Francês
duh = die, der, das, etc. em Alemão
Gênero gramatical não é algo fácil de se aprender também. As palavras do masculino e feminino para Francês e as palavras do masculino, feminino e neutro para Alemão são apenas uma questão de memorização. A mesma dificuldade se aplica para diferentes classes de verbos. Aspectos (como a diferenciação entre coisas que são feitas de uma vez por todas, e coisas que são feitas repetidamente -- o perfeito e o imperfeito) é aprendido antes dos tempos (passado-presente-futuro). Tempo é na verdade muito difícil, ainda que adultos tenham facilidade.

Aparentemente há línguas que são mais fáceis para crianças aprender, e outras mais difíceis: Algumas línguas (Turco, Húngaro e Finlandês, por exemplo) usam muitos sufixos para indicar várias qualidades gramaticais e semânticas. Estes sufixos são muito comuns, sílabas completas, e totalmente regulares -- e são aprendidos cedo e facilmente.

Por outro lado, algumas línguas (e.g. Chinês, Indonésio e até certo ponto o Inglês) preferem usar palavras pequenas chamadas partículas (e.g. the, of, in, and, e assim por diante). Estas tendem a ser aprendidas mais tarde, porque elas não tem nenhum significado próprio e são comumente pronunciadas sem acentuação e sem claridade.

Um terceiro grupo -- que contem a maioria das línguas Europeias e Semitas -- tem um sistema misto, incluindo muitos finais e partículas irregulares e não acentuadas. Se você se lembra do esforço que precisou para lembrar dos artigos do Alemão, ou as conjugações do Espanhol, você percebe porquê crianças tem dificuldade de aprender essas coisas também.

Aprendizado de linguagem não acaba aos dois anos, é claro. Crianças de três anos são notórias por algo chamado hiper-regularização. A maioria das línguas tem irregularidades, mas crianças de três anos adoram regras e irão passar por cima de algumas irregularidades que aprenderam quando tinham dois anos, e.g. "Eu di" ao invés de eu dei. Crianças de três anos conseguem falar em sentenças de quatro palavras e podem ter 1.000 palavras ao seu comando.

Crianças de quatro anos são ótimos perguntadores, e começam a usar muitas palavras de questionamento, como onde, o quê, quem, por quê e quando (aprendidas nessa ordem). Eles conseguem lidar com sentenças de cinco palavras, e geralmente tem um vocabulário com 1.500 palavras.

Com cinco anos, crianças fazem sentenças de seis palavras, e podem usar até 2.000 palavras. A criança no primeiro ano do ensino fundamental usa 6.000 palavras. E adultos conseguem usar 25.000 palavras e reconhecem até 50.000!
Um dos maiores obstáculos para crianças é aprender a ler e escrever. Em algumas línguas, como Italiano e Turco, é relativamente fácil: Palavras são escritas como são pronunciadas, e pronunciadas como são escritas. Outras línguas -- Sueco e Francês, por exemplo -- não são muito difíceis, porque têm bastante consistência. Mas outras línguas tem sistemas de ortografia terrivelmente ultrapassados. Inglês é claramente o vencedor entre as línguas que usam os alfabetos ocidentais. Passa-se anos de educação tentando fazer crianças memorizarem pronúncias irracionais. Na Itália, por outro lado, pronúncia não é nem reconhecida como uma matéria de escola, e competições de pronúncia seriam ridículas!

E então tem línguas que nem usam alfabeto: Chinês requer anos de memorização de uma longa lista de símbolos. O Japonês tem quatro sistemas que todas as crianças precisam aprender: Um grande número de símbolos kanji, adotado séculos atrás do Chinês; dois diferentes silabários ("alfabetos" baseados em sílabas): e o alfabeto ocidental! Os Coreanos, por outro lado, tem seu próprio alfabeto com uma relação perfeita entre símbolo e som.


Autor: Dr. C. George Boeree

Texto original: http://webspace.ship.edu/cgboer/langdev.html


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