Seja qual for o componente instintivo da vida humana, está claro que o aprendizado é o componente predominante. E não é que apenas aprendemos mais que a maioria dos animais; nós o fazemos de maneiras mais diferentes!
Todo aprendizado no fim se resume a associação e diferenciação. Estes são os dois mecanismos básicos de aprendizado (e memória) que tem sido propostos há séculos. Associação é aprender que duas coisas vão juntas. Por exemplo, nós aprendemos que colheres vão com facas, xícaras vão com pires, relâmpago causa trovão, dor causa ferimento, e assim segue.
Diferenciação é aprender a distinguir uma coisa da outra. Nós aprendemos que verde, e não vermelho, significa continuar, que gatos, e não cachorros, tem unhas afiadas, que a fala gentil, e não gritar, é aprovado pelos mais velhos, que pássaros tem penas mas répteis não. Está claro que associação e diferenciação são dois lados da mesma moeda, mas as vezes um é mais óbvio e as vezes o outro que é. Tem muitas coisas que nos ajudam a reter associações e diferenciações: A primeira é óbvia: Repetição ou Ensaio. A prática leva a perfeição! Depois há coisas como vividez e intensidade: A chance de lembrar do nome de alguém é maior se ele é mais barulhento e colorido do que se é quieto e ordinário. E finalmente temos condicionamento: isto é, a associação ou diferenciação com algo que nos motiva, seja comida, companhia, dinheiro, senso de orgulho, medo de dor, ou o que seja.
A maneira mais simples de aprendizado, que é a que compartilhamos com todos os animais, chamamos de ambiental: Com base dos seus presentes conhecimentos e informações, você antecipa certas coisas ou age de certa maneira - mas o mundo não cumpre com suas expectativas. Então, após várias outras antecipações e ações, você se adapta, desenvolve um novo entendimento, ganha novo conhecimento.
Condicionamento ambiental adiciona uma consequência positiva ou negativa ao aprendizado que o marca: Você corre, esperando 100 metros de campo aberto, quando do nada você bate numa árvore que não tinha percebido. Você vai ter mais cuidado no futuro!
Para um animal social, muito desse conhecimento vem de outros - i.e. é um condicionamento social, também conhecido como recompensas e punições. Então, ao invés de aprender a não correr através da rua ao ser atropelado, você aprende ao ser punido quando você começa a correr. Ou, ao invés de aprender os papéis dos sexos por acidente (!), você é gentilmente o molda com sinais de aprovação social: "Como você é bonita!" ou "Aqui está meu homenzinho!".
Historicamente, duas formas de condicionamento tem sido o foco de estudo intenso: Condicionamento clássico e condicionamento operante.
Condicionamento Clássico
Condicionamento clássico (ou Pavloviano) se constrói nos reflexos: Começamos com um estímulo incondicionado (EIN) e uma resposta incondicionada (RIN) - um reflexo! Nós então associamos um estímulo neutro (EN) com o reflexo ao apresentá-lo junto ao estimulo incondicionado. Com um número de repetições, o estímulo neutro por si só vai gerar uma resposta! Nesse ponto, o estímulo neutro é renomeado para estímulo condicionado (EC), e a resposta é agora chamada de resposta condicionada (RC). Agora colocando na maneira com que Pavlov observou em seus cachorros: Um pouco de pó de carne na língua faz com que um cachorro salive. Toque um sino ao mesmo tempo, e após algumas repetições, o cachorro vai salivar ao ouvir o sino sozinho - sem ter recebido o pó de carne! O cachorro associa o toque do sino com a apresentação de comida. O pó de carne é um estímulo incondicionado e salivar é, no começo, uma resposta incondicionada. Primeiramente o sino é um estímulo neutro, mas depois do condicionamento ele se torna um estímulo condicionado e salivar se torna uma resposta condicionada.
Pavlov (centro) com assistentes e cachorro
O primeiro seguidor Americano de Pavlov foi John Watson. Seu experimento mais conhecido foi conduzido em 1920. "Pequeno" Albert B, uma criança de 11 meses, foi condicionada a ter medo de ratos brancos ao emparelha-los com um som alto (que leva ao reflexo do susto). Seu medo rapidamente se generalizou a coelhos brancos, casacos de pele e até algodão. Mais tarde, outra criança, Peter de três anos de idade, foi gradualmente "descondicionado" do seu medo de coelhos brancos ao emparelha-los com leite e cookies e outras coisas positivas. Mas devemos notar que, mesmo que eles não o "descondicionassem", ele eventualmente perderia seu medo, um processo chamado de extinção. Preciso acentuar que, por mais famoso que esses experimentos sejam, eles não qualificam como boa ciência, e parece que os resultados foram bastante exagerados por Watson, que também não exatamente qualificava como um bom cientista.
Condicionamento Operante
Um comportamento seguido de um estímulo reforçante resulta num aumento da probabilidade desse comportamento ocorrer no futuro.
Imagine um rato numa jaula. Essa é uma jaula especial (chamada, de fato, de "caixa de Skinner") que tem uma barra ou pedal em uma das paredes que, quando pressionada, faz com que um pequeno mecanismo solte um punhado de comida na jaula. O rato está se esbarrando pela jaula, fazendo seja lá o que ratos fazem, quando acidentalmente ele pressiona o pedal e - voilà! - um punhado de comida cai na jaula! O operante é o comportamento imediatamente anterior ao reforçador, que é o punhado de comida, é claro. Em pouquíssimo tempo, o rato está furiosamente pressionando o pedal, acumulando feliz sua pilha de comida no canto da jaula.
O que acontece se você não der ao rato mais nenhuma comida? Aparentemente, ele não é nenhum bobo, e após algumas tentativas fúteis, ele para com o comportamento de apertar pedais. Isso é chamado de extinção do comportamento operante.
Um comportamento que não é mais seguido pelo estímulo reforçante resulta na diminuição da probabilidade de que esse comportamento ocorra no futuro.
Uma (das muitas) descoberta interessante que Skinner fez tem a ver com escalas de reforço. Se você quer condicionar um comportamento, a escala mais rápida de se usar é a escala contínua: Dê a seu cachorro um petisco toda vez que ele fazer um truque. É claro, isso vai se tornar custoso depois de um tempo. Então dê a ele um petisco a cada quinta vez que ele fizer o truque (escala de razão fixa) ou se ele fizer o truque pelo menos uma vez dentro de um certo período (escala de intervalo fixo). Estes funcionam bem, e fazem com que o comportamento não se extingua.
Melhor ainda, reforce de alguma maneira aleatório. Continue mudando o número de vezes que ele precisa fazer o truque para conseguir seu petisco, ou continue mudando o período de tempo. Estas são chamadas de escalas variáveis de reforço, e são muito poderosas para manter algo aprendido por condicionamento operante. É isso que faz os apostadores continuarem apostando: Você nunca sabe se aquela próxima rolada de dados ou mão de cartas vai te fazer um vencedor!
Agora, se fosse para você ligar de novo a máquina de punhados, para que apertar o pedal resulte novamente em ratos com comida, o comportamento de apertar pedal apareceria novamente na existência, muito mais rápido do que quando o comportamento foi aprendido pela primeira vez. Isso acontece porque a volta do reforço acontece no contexto do histórico do reforço que vai desde a primeira vez que o rato foi reforçado a empurrar o pedal!
Uma questão que Skinner teve que lidar foi como chegamos a comportamentos mais complexos. Ele respondeu com a ideia de moldagem, ou "o método de aproximações sucessivas". Basicamente, envolve primeiro reforçar um comportamento apenas vagamente parecido com aquele desejado. Uma vez estabelecido, você procura por variações desse comportamento que chegam um pouco mais próximos do que você quer, reforçando apenas estes, e assim por diante, até que você tem o animal realizando um comportamento que nunca apareceria numa vida ordinária. Skinner e seus estudantes tem sido bem sucedidos em ensinar animais simples a fazer coisas extraordinárias. Meu favorito é aprender a fazer pombos se curvarem!
Eu usei o método da moldagem em uma das minhas filhas uma vez. Ela estava prestes a fazer três ans de idade, e tinha medo de descer um escorregador em particular. Então eu a peguei, coloquei-a no fim do escorregador, perguntei se estava tudo bem e se ela poderia descer. Ela desceu, e eu a parabenizei com louvor. Então, a peguei e coloquei cerca de trinta centímetros mais acima do que da última vez, e perguntei se estava tudo bem, e pedi para ela escorregar e descer. Até aí tudo bem. Repeti isso de novo e de novo, cada vez mais movendo-a um pouco mais acima no escorregador, e diminuindo a altura se ela ficasse nervoso. Eventualmente, eu podia colocá-la no topo do escorregador e ela desceria até o fim e depois pularia fora. Infelizmente, ela ainda não conseguia subir as escadas, então eu fui um pai muito ocupado por um tempo.
Além esses exemplos simples, moldar também considera comportamentos mais complexos. Você não se torna, por exemplo, cirurgião cerebral ao tropeçar numa sala de operações, abrindo a cabeça de alguém, removendo um tumor com sucesso e sendo recompensado com prestígio e um pagamento gordo, da mesma forma que o rato na caixa de Skinner. Ao invés disso, você é suavemente moldado pelo seu ambiente a gostar de certas coisas, ir bem na escola, participar de certas aulas de biologia, ver um filme inspirador sobre médicos talvez, fazer uma visita legal ao hospital, entrar na faculdade de medicina, ser encorajado a cirurgia cerebral como uma especialidade, e assim por diante. Isso pode ser algo que seus pais cuidadosamente fizeram com você, ala um rato numa caixa. Mas é muito mais provável que isso foi algo mais ou menos não intencional.
Note também que as vezes coisas de fato se tornam reforços por associação. Dinheiro, por exemplo, é altamente reforçante para a maioria de nós. Skinner explicaria isso indicando que, originalmente, dinheiro era apenas algo que você usava para comprar coisas que são mais diretamente, fisicamente, reforçantes. Estes reforçantes aprendidos são chamados de reforçantes secundários.
E então tem a punição. Se você eletrocutar um rato por fazer x, ele fará muito menos x. Se você espancar João por arremessar seus brinquedos ele vai arremessar os brinquedos cada vez menos (talvez). Punição geralmente envolve um estímulo aversivo, que é o oposto de um estímulo reforçante, algo que possivelmente acreditamos ser desprazeroso ou doloroso.
Um comportamento seguido de um estímulo aversivo resulta na diminuição da probabilidade deste comportamento ocorrer no futuro.
Por outro lado, se você remover um estímulo aversivo já ativo após o rato ou João realizarem certo comportamento, você está fazendo um reforço negativo. Se você desligar a eletricidade quando o rato se erguer sobre suas patas traseiras, ele vai fazer isso muito mais vezes. Se você parar sua reclamação perpétua quando ele finalmente tira o lixo para fora de casa, será mais provável que ele tire o lixo (talvez). Você poderia dizer que "é tão bom" quando o estímulo aversivo para, que serve como um reforço! Isso é como os gatos ou cachorros (ou você) aprendem a sair da chuva.
Comportamento seguido pela remoção de um estímulo aversivo resulta no aumento da probabilidade desse estímulo ocorrer no futuro.
Perceba como é difícil distinguir algumas formas de reforço negativo de reforço positivo: Se eu te deixar com fome, é a comida que lhe dou quando você faz o que quero um positivo - i.e. um reforço? Ou é a remoção do negativo - i.e. o estímulo aversivo da fome?
Skinner (contrário a alguns estereótipos que surgiram sobre behaviouristas) não aprovava o uso de estímulos aversivos - não por causa de ética, mas porque não funcionava bem! Observe que eu disse mais cedo que João talvez vá parar de arremessar seus brinquedos, e que eu talvez vá tirar o lixo? É porque seja lá o que estiver reforçando os comportamentos ruins não foi removido, como seria no caso da extinção. Esse reforço escondido foi apenas "coberto" com um estímulo aversivo conflituante. Então, claro, às vezes João vai se comportar - mas ainda é legal arremessar aqueles brinquedos! Tudo que João precisa é esperar você sair do quarto, ou achar um jeito de culpar seu irmão, ou de alguma maneira escapar das consequência, que ele estará de volta aos seus velhos costumes.
Formas superiores de aprendizagem
Nem todo mundo foi pego pelo espírito do behaviorismo. Os psicólogos Gestalt (os mesmos que exploraram percepção) perceberam que muito do "comportamento" não precisa acontecer de fato fisicamente: Pessoas podem trabalhar cognitivamente ao solucionar um problema. Isso foi denominado aprendizado por insight ou aprendizado por introspecção. Um dos Gestaltistas originais, Wolfgang Köhler, ficou preso em uma das Ilhas Canárias perto da Africa durante a Primeira Guerra Mundial. Enquanto estava lá, ele estudou os chimpanzés locais. Ele arranjava problemas para eles resolverem, como pendurar bananas fora do alcance. Os chimpanzés rapidamente aprendiam a usar algumas das coisas que ele lhes fornecia, como caixas que eles podiam empilhar ou estacas que eles podiam juntar com outras para formar estacas maiores. Um chimpanzé era particularmente bom em resolver estes problemas. Ele literalmente sentava e pensava sobre a situação, então de repente de levantava e criava uma nova ferramenta para conseguir o que desejava - as bananas.
Até alguns behavioristas ficaram interessados nos exemplos atípicos de aprendizado. E. C. Tolman, por exemplo, notou que ratos, como pessoas, podem aprender sobre seu ambiente sem nenhum reforço óbvio. Coloque um rato num labirinto e deixe que ele vagueie. Depois, introduza algum tipo de recompensa no fim, e os ratos vão chegar lá em pouquíssimo tempo. Eles já tinham, é claro, conhecido o labirinto. Ele chamou esse aprendizado de aprendizado latente, e sugeriu que os ratos tinham formado um mapa cognitivo em suas pequenas mentes, assim como você ou eu podemos aprender a nos guiar em uma cidade desconhecida sem necessariamente ser recompensado!
Outra habilidade em comum entre animais sociais é a habilidade de aprender observando outros. Existe, por exemplo, o aprendizado vicário: Se você vê uma criatura colega se machucar ou se dar bem, ser punido ou recompensado, etc., por alguma ação, você consegue "identificar-se" com aquela criatura colega e aprender com suas experiências.
Ainda mais importante é a habilidade chamada de imitação (às vezes chamada de modelagem). Nós não apenas aprendemos as consequências de comportamentos ao assistir outros (como no aprendizado vicário), nós aprendemos os próprios comportamentos também! Pais são muitas vezes desconfortavelmente surpreendidos com o quanto suas crianças são parecidas com eles, apesar de todos os seus esforços para torná-los pessoas melhores. E crianças são muitas vezes surpreendidas com o quão parecidas elas são com seus pais, apesar de todos os seus esforços para se diferenciarem. Eu diria que imitação é a maneira mais significativa com a qual pessoas aprendem.
Isso pode parecer um experimento bobo primeiramente, mas considere isso: Essas crianças mudaram seu comportamento sem terem sido primeiro recompensadas por aproximação até aquele comportamento! E enquanto isso pode não parecer extraordinário para os pais, professores ou observadores casuais, não se encaixava muito bem com os padrões de aprendizado da teoria behaviourista, Pavoloviana ou Skinneriana!
Para um animal social capaz de linguagem, aprendizado social pode ser ainda mais afastado do feedback ambiental imediato. Nós podemos, por exemplo, aprender com avisos, recomendações, ameaças e promessas. Até criaturas sem linguagem podem comunicar essas coisas (com rosnados e ronronados e sibilos e afins). Mas a linguagem transforma isso numa fina arte.
E finalmente, podemos aprender por descrições de comportamento, que podemos "imitar" como se tivéssemos os observado, por exemplo quando lemos um livro de "como" fazer algo (preferencialmente "para leigos!"). Isso é usualmente chamado de aprendizado simbólico. Além disso, podemos aprender complexos inteiros de comportamentos, pensamentos e sentimentos como crenças, sistemas de crença, atitudes e valores. É curioso o quanto podemos falar sobre condicionamento e moldagem em psicologia, quando passamos tanto tempo de nossas vidas na escola - ou seja, envolvidos em aprendizado simbólico!
Autor: Dr. C. George Boeree
Texto original: http://webspace.ship.edu/cgboer/genpsylearning.html
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